sábado, 15 de março de 2014

Envelopes pardos

Em meio a tanta escrita, acaso nos importa ser Ana, ser Bárbara, ser Chico, ser tarde?

(...)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Para Eros se lembrar da mãe I

Queria conseguir judiar da saudade
rasgar, cuspir, esfolar
Depois te devolver
saudade feia e mal acabada
sofrida e desgostosa
sincero presente
do fundo do
(poço)          coração.
                    

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

DA ESCRITA I

Todo nascimento do verbo anuncia uma morte...
Palavra que engasga na garganta,
palavra que tropeça em 'se' e volta.
E volta.
E volta...
A cada queda
da palavra,
uma perda
“coisa com mais perdas é o eu”

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Do remoto controle (com meu re-conhecimento)


06 de setembro de 2013
(...)
Os opostos às vezes são mais próximos que os meios. E estão em mim, inseparáveis.

                                              [Da série: "Fragmentos de costuras que se soltam entre capas verdes"]


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Dos (des)encontros cotidianos

Que vida é essa que você pretende que aconteça em dias de coxas depiladas e calcinhas estratégicas, secadas com secador de cabelo? Nesse dia, pode ter certeza, seu celular vai tocar 8 vezes! E você vai se frustrar em todas elas. Receberá com desgosto ligações da sua mãe, da empresa de telefonia, da secretária do dentista, do seu irmão e de uns 4 amigos distantes com saudade.

Pelas estatísticas dos aparelhos sem bateria, das mensagens salvas nos rascunhos de celular, dos guardanapos perdidos com números de telefone e da escassez de crédito em chips pré-pagos é logicamente impossível que uma dessas ligações fosse ser o convite que você deseja.

Essa vida, honey, essa vida que você imagina, acontece com as borboletas do seu estômago desintegradas na adrenalina da ansiedade, nos copos solitários whisky e nas comédias românticas assistidas madrugada adentro (ou séries de zumbis, o que for de sua preferência.) Essa vida não existe para ser, assim, compartilhada...

Não digo isso para que se sinta mal, erga seu copo aqui comigo! Vamos brindar as tardes chuvosas em livrarias, os ônibus perdidos na rodoviária, as cartas de amor achadas em bancos de jardim… Um brinde às noites muito bem não dormidas e aos expressos na padaria no dia seguinte antes do trabalho. Às garrafas de vinho dividas com estranhos no meio da rua. À todas aquelas que mandam um foda-se para a cor das calcinhas e preferem colorir segundas-feiras.

Ah! (suspiro...) Um brinde às deliciosas e surpreendentes brincadeiras do destino.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Esquinas

31 de janeiro de 2014
"Dessa vez, pela primeira vez, a volta era uma ida..."
[Da série: "Fragmentos de costuras que se soltam entre capas verdes"]

...

A mala ao lado não me cabe em lembrança.
E pesa.
Somos o que fazemos dos restos que fizemos de nós.
Também...
Memórias suspiradas na poesia de um parafuso,
o olhar que surpreende e atravessa para um lugar refeito de mim,
   a estrada que se abre corajosa escrita ao anoitecer e esse ponto final que nunca, nunca chega


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Legítima em defesa

06 de agosto de 2013

(...)
Legitimo minha tristeza no corpo que dói... E o corpo é palavra, linguagem. Que precisa sair de mim para que esse corpo exista, caminhe, com o retorno dessa palavra por outras vozes...
(...)
Quero existir com ela também... Como afeto, corpo e linguagem...

[Da série: Fragmentos de costuras que se soltam entre capas verdes]

Para ouvir: Palavras não falam - Mariana Aydar

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

06 de janeiro de alguns anos por aí

(Foto: Íris Jesus)

"Atravessar a rua era quase uma catarse..."
Talvez porque tropeçávamos em malas amarelas e rabos de lagartixas, outras vezes porque à certa altura da noite a seleta com mel e limão já se tornou companhia que transforma distraídos em parte da juventude universitária subversiva. Nesses momentos, que função melhor tem os celulares dos adultos trabalhadores senão distribuir amor em madrugadas de quinta feira, não é mesmo? E me convence! Só você é capaz de saber melhor que mim mesma que o fato de eu achar Holden Caulfield insuportavelmente adolescente não tem a ver com discriminação etária, mas representa uma chance a mais de eu tentar sentir o que seria receber uma carta escrita pelo Salinger... São nossas incursões nesse pequeno grande mundo que guarda sentido nas correspondências, máquinas de escrever e playlist rabiscadas em contracapas. Mundo compartilhado carregando caderninhos na bolsa e sabendo que um convite para a 35 obviamente significa levar histórias para passear no corredor... As tardes barroquianas estendem nossas teorias proféticas e ampliam os referenciais possíveis. “Isso é Lacan, bêbado!” Com certeza. Reunido com Dom Quixote, Cartola, Ana Cristina César. Por vezes influenciando a criação de tatuagens autorais e caixinhas de fósforo que anunciam The Doors. Quem sabe por isso tenha te escolhido para guardar minhas referências! Você percebe como essa liberdade de cada um pela própria vida mexe com a minha literatura... “Toma, escreve!” E seu imperativo é como um convite para a criança se sentar no balanço mais alto do parquinho e arriscar tirar os pés do chão. “Eu quero te ler...” Essa necessidade movente que nos atropela e você transforma em finais para além de Hollywood... O abandono e a falta. A escrita de uma beleza sincera que costura (des)caminhos entre tantas vidas possíveis...

Se chegou até aqui, queria dizer que não precisa mais ter medo caso façamos aquelas nossas camisetas ameaçadoras de escritoras terroristas, deve ter percebido que acabo de riscar teu nome. Especificamente hoje, venho apenas te oferecer dedos saudáveis, cafés merecedores de saraus involuntários, bancos de madeira que contam histórias de esquilos apaixonados, amores que tremem sete vezes antes do luto final e essa música aí embaixo (um pleonasmo! Já que você bem sabe que atrás de cada terno que segura um Nextel na mão existe uma criança sonhando em tirar a gravata e subir num pé de jabuticaba...)



Pequeno aviso fundamental àqueles que tem dificuldade de interpretação de texto: é óbvio que isso não é uma carta, é apenas literatura!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Belo Horizonte, 31 de maio de 2013

Desejos pendurados em cílios soltos:

Que seja leve
Que seja livre
Que seja encanto
Que seja, sendo...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

(in)cômodos

"Mas para quê tantas portas?" você me pergunta.
E antes de alcançar a interrogação eu quero gritar: "Entra! A casa é sua..."

(a casa é sua, sua... sua... sua...)

Mas minha voz se perde tentando tecer preenchimentos percussivos com o eco que se movimenta em cômodos recém ampliados ...

Para ouvir: Infinito particular - Marisa Monte

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

AINDA II

Meu olhar pára nas suas mãos e fica. Um livro surrado de capa vermelha, você emoldurada entre a parede e a cômoda, seus lábios distantes e embaçados se movendo em versos mudos e, talvez, escolhidos.

São 2h da manhã e eu folheio mais de 400 páginas tentando ouvir sua voz que ficou suspensa em algum lugar que não me lembro. Falha na memória? Não... Memória pedinte, viva, chamando pra ser inventada. Essa memória é um “ainda”. Advérbio de tempo, modificando as circunstâncias da (não)ação. Querer é verbo? O querer se modifica sozinho, atropela vírgulas, pontos, parágrafos, mas com o ainda aceita nossas reticências... ainda é meu permanecer no tempo. O ainda é uma alternativa para o querer inquieto... 

Volto ao mistério da memória. Continuo folheando até a reinvenção dos seus versos mudos, ocupo o lugar do silêncio e escolho(será?...), página 106:

“cabeceira

Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
“da sombra daquele beijo
que farei?”
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza distraidamente?
sobre a minha mão”
(Ana Cristina César)