sábado, 9 de setembro de 2017

o tom do tempo



um dia ele olhou as minhas unhas pintadas num acaso de vermelho e disse que achava bonito. “tão feminino” – ele falou. durante os meses em que estivemos juntos, cuidei de pintar as unhas... sentava no chão da sala, pausava os estudos naqueles dias de tantos compromissos para me colorir, revivendo o prazer que eu sentia ao observa-lo, distraído, olhando as minhas mãos.
agora é a primeira vez que tenho esmalte nas unhas desde que ele foi embora e por um instante me perguntei, intrigada, se é tempo que me falta para esses fazeres de manicure. em seguida, me posiciono diante da câmera buscando um olhar, os minutos passam sem incomodar. pois não é sobre as horas do relógio que se conta essa imagem, esse gesto, essa escrita...

hoje entendi que o valor do tempo se quantifica é pela medida do nosso desejo.

sexta-feira, 25 de março de 2016

quinta-feira

 
 cozinhei sozinha
vi a lua nascer da varanda
discordei da bossa nova
sorri com as cores de Caetano
lembrei do seu gozo em mim
não troquei o disco



sexta-feira, 11 de março de 2016

(por) um fio

Foto: Diogo Moraes (Instagram: _moraesdiogo)

 segura na curva da dúvida
escorro quente...
paro no quase,
no quando.
espero um tempo azul,
o céu de quem?
 - medo de cair sozinha -

sábado, 5 de março de 2016

medo de (a)mar IV



com M maiúsculo:

o mar mais um,
                            mais eu,
                                            sem nós.
                                                              ...



para ouvir: João e Maria por Maria Bethânia e Caetano Veloso

(do te-ser memória_4)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

medo de (a)mar III





em frente ao mar, 18 de janeiro de 2016  

Joana,

a carta segue a lápis, o que tem sido incomum nos últimos tempos. minhas mãos coçam, tenho tentado fazer a vida seguir na espuma dos dias, assim, como bolhas na superfície das ondas que se movem em busca de um respiro. é preciso ter cuidado, Joana, ali, na leveza, corre-se o risco de arrebentar-se e cair na imensidão do oxigênio, numa mistura indefinida. não é o que queremos agora. da mesma forma que a espuma desenha o mar, há um limite em mim e ele se faz na ponta dos dedos, você sente?

o limite da onda é a espuma e acima dela acabou o mar e vira outra coisa. as pessoas amam até que as coisas se explodem numa imensidão disforme de oxigênio.

não gosto muito do que estou dizendo... às vezes gosto, às vezes não gosto, penso que digo pelo medo de tudo isso que não se diz mas que cresce ilimitado e sempre mais e mais e mais... 

“nem se eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo”  

um mar inteiro. um amor inteiro. e eu, inteira de falta. resolvo que hoje eu não vou entrar no mar, Joana. ele fica, ele espera... há escolha? pois a minha está feita, hoje estou feliz em ver o mar não se acabar.

um sopro,
T.

Para ouvir: Queixa - Caetano

domingo, 10 de janeiro de 2016

um cuidado sob(re) a força


o molho de chaves balançava na cintura fazendo barulho. o andar devagar. ritmado. a pausa.      a casa era dela e disso ninguém ousava duvidar, foram quantos anos, carregando as chaves? a memória se ocupa desse dia e o tempo é outro, lento... aquele calor de Montes Claros, a água que não mata a sede e eles insistem em dizer que é a melhor do mundo! meus olhos ficam na altura daquelas chaves e demoro a perceber que falam comigo. ela está lá, parada na escada da frente, não tem barulho de chave mais... eu sou criança, preciso subir e apanhar algo que caiu no chão, uma identidade. faço isso e todos eles me olham, o silêncio me olha também, sou uma boa menina. me abaixo, pego o que caiu e entrego a ela, tenho medo. e tenho vergonha. tenho vergonha de sentir medo. as chaves voltam a chacoalhar, desaparecem. mas há portas abertas - fresta fissura convite! não sabia o que queria ver então vi. um encontro, um sorriso. é preciso reinventar mais uma vez a memória: observo o amor passar pelos buracos das fechaduras, e é assim que agora você me olha... a partir de hoje, quando refizer essa história eu escolho isso.

'você escolheu ser feliz?'




Para ouvir: Beira-Mar Novo por Coral Trovadores do Vale

(do te-ser memória_3)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Casa da praia, dezembro de 2015

Clarice,

estive meio louca esses dias, coisa de mulher. cheguei para o marido de uma amiga e disse a ele que me escutasse, que eu ia dar um conselho para o casamento deles ser feliz. pedi a ele que deixasse render os dramas dela, não fizesse pouco caso. sabe o que é, a mulher é sensacional, se posiciona, conversa, se mantém firme o ano inteiro... faz análise toda semana! mas, assim, às vezes a gente precisa, né? não dá pra se manter na linha o ano inteiro, sublimando, escrevendo, trabalhando... um draminha de dezembro, as mulheres merecem! falei para ele entender, não dizer que é TPM e fazer a parte dele direitinho no drama dela, coisa pouca, umas horinhas só e já dá pra ficar feliz, é até bonitinho. (risos)

ai, falei, Clarice! doida que eu estava. mas você não concorda? ele concordou sem reclamar, muito bem casada essa minha amiga, marido ótimo.

eu estou sem homem esses dias, final de ano ele trabalha tanto! comecei a tomar Frontal faz uma semana, mas o médico disse que é só um mês, ando tendo uns baratos legais por causa do remédio, não sei se com o tempo passa. Mas estou boa, acredite! sábado fez um solzinho, cheguei da praia cansada resolvi assistir “Vicky, Cristina, Barcelona”, as histéricas do Wooddy Allen são incríveis! apesar de eu preferir Almódovar.

Sabe que aqui no Brasil andam falando de você e Guimarães Rosa? escritores do modernismo! água, sertão e outras coisas mais! cá, entre nós, vocês já vem se entendendo antes desses teóricos que eu sei. falam muito sobre as paisagens no texto dele e não percebem que o que você escreve também é paisagem. Mas eu sei de gente que vê, não se preocupe, deixa como segredo de mulher, por enquanto.

um abraço amiga,
escreva breve,
Penélope.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

o que resta

Desenho: Danielle Souza
o que resta é o corpo, esse inevitável. e com ele a invenção.
um corpo que escreve. que sente, que pulsa, que vive.
um corpo que tropeçou naquilo que um dia fora a possibilidade única de si.
maçã que falta. maçã mordida. maçã marcada de desejo. maçã com semente, possibilidade de fazer nascer. então nasci mulher e não sabia dizer bem.

mas ia dizendo. que seja assim, sendo.
bem dito o fruto do vosso ventre mulher... bem dito o desejo que me fez nascer...


sábado, 7 de novembro de 2015

Vaca amarela


Nem mais um pio! a mãe dizia. Lá no fundo do quintal, o passarinho já de olhos bem abertos queria acordar para fazer a menina feliz. 

O silêncio tinha um rastro amarelo e ocupava este lado da casa. Sentava sem medo onde quer que fosse e ficava observando a menina. A boca fechada para não entrar mosquito, não era uma escolha engolir uma a uma as palavras que queriam dobrar a língua. Passou a inventar os caminhos por onde sairiam silenciosas, sem que ninguém percebesse.

“Não! Não nasci para engolir a bosta de ninguém!” queria falar primeiro, gritando.

Mas antes que pudesse, o gato comeu a língua dela, bebeu todo o leite e fez a vaca pular da janela.


(do te-ser memória_2)

sábado, 24 de outubro de 2015

despertar

     os começos sempre me escapam
(e talvez por isso eu insista em escrever)
sei que eu corri, mas não fiz nada para impedir. apenas abri os olhos e esperei, como repetiria tantas vezes nos anos seguintes... talvez eu quisesse que acontecesse ou simplesmente não acreditasse que fosse possível. eu esperei olhando. a torneira aberta e ele insistindo. só na terceira tentativa aconteceu. ali o tempo parou. naquele relógio azul embaixo d'água. a água passa e o tempo fica. não havia mãe capaz de consertar o tempo. de fazer o tempo voltar a correr.

era uma vez, um presente.

ouvindo: Depois de ter você - Adriana Calcanhotto


(do te-ser memória_1)

domingo, 16 de agosto de 2015

um texto que me descubra


eu querida de mim, querendo
eu sentida assim, sendo
eu, minha, sentindo isso
isso assim, de dentro, desse jeito
do meu jeito
desfio a memória
e escrevo
buscando sentido
buscando e sentindo
eu que só sei porque sinto
eu que sinto que não sei
estou nua por responsabilidade própria.