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sábado, 5 de março de 2016

medo de (a)mar IV



com M maiúsculo:

o mar mais um,
                            mais eu,
                                            sem nós.
                                                              ...



para ouvir: João e Maria por Maria Bethânia e Caetano Veloso

(do te-ser memória_4)

domingo, 10 de janeiro de 2016

um cuidado sob(re) a força


o molho de chaves balançava na cintura fazendo barulho. o andar devagar. ritmado. a pausa.      a casa era dela e disso ninguém ousava duvidar, foram quantos anos, carregando as chaves? a memória se ocupa desse dia e o tempo é outro, lento... aquele calor de Montes Claros, a água que não mata a sede e eles insistem em dizer que é a melhor do mundo! meus olhos ficam na altura daquelas chaves e demoro a perceber que falam comigo. ela está lá, parada na escada da frente, não tem barulho de chave mais... eu sou criança, preciso subir e apanhar algo que caiu no chão, uma identidade. faço isso e todos eles me olham, o silêncio me olha também, sou uma boa menina. me abaixo, pego o que caiu e entrego a ela, tenho medo. e tenho vergonha. tenho vergonha de sentir medo. as chaves voltam a chacoalhar, desaparecem. mas há portas abertas - fresta fissura convite! não sabia o que queria ver então vi. um encontro, um sorriso. é preciso reinventar mais uma vez a memória: observo o amor passar pelos buracos das fechaduras, e é assim que agora você me olha... a partir de hoje, quando refizer essa história eu escolho isso.

'você escolheu ser feliz?'




Para ouvir: Beira-Mar Novo por Coral Trovadores do Vale

(do te-ser memória_3)

sábado, 7 de novembro de 2015

Vaca amarela


Nem mais um pio! a mãe dizia. Lá no fundo do quintal, o passarinho já de olhos bem abertos queria acordar para fazer a menina feliz. 

O silêncio tinha um rastro amarelo e ocupava este lado da casa. Sentava sem medo onde quer que fosse e ficava observando a menina. A boca fechada para não entrar mosquito, não era uma escolha engolir uma a uma as palavras que queriam dobrar a língua. Passou a inventar os caminhos por onde sairiam silenciosas, sem que ninguém percebesse.

“Não! Não nasci para engolir a bosta de ninguém!” queria falar primeiro, gritando.

Mas antes que pudesse, o gato comeu a língua dela, bebeu todo o leite e fez a vaca pular da janela.


(do te-ser memória_2)

sábado, 24 de outubro de 2015

despertar

     os começos sempre me escapam
(e talvez por isso eu insista em escrever)
sei que eu corri, mas não fiz nada para impedir. apenas abri os olhos e esperei, como repetiria tantas vezes nos anos seguintes... talvez eu quisesse que acontecesse ou simplesmente não acreditasse que fosse possível. eu esperei olhando. a torneira aberta e ele insistindo. só na terceira tentativa aconteceu. ali o tempo parou. naquele relógio azul embaixo d'água. a água passa e o tempo fica. não havia mãe capaz de consertar o tempo. de fazer o tempo voltar a correr.

era uma vez, um presente.

ouvindo: Depois de ter você - Adriana Calcanhotto


(do te-ser memória_1)