sou mulher de palavra. palavra escrita, pulsante, marcada, derramada, costurada... palavra que chama em silêncio, comprometida com tempos suspensos...
segunda-feira, 8 de junho de 2015
sobre o sopro, (h)a língua
um mês inteiro num único dia, hoje resolvi
antecipar junho e reverto a espera com o que sei ter e estar. Admito que
inventei. Há meses soltei o fio do desejo, não houve quem apanhasse a outra
ponta, eu insisti e não vou me culpar por querer. Agora, as mãos entregues ao
controle do barco, navego contra a correnteza acompanhada de algo que não me
abandona mas silencia em perplexidade e me olha desconhecendo o caminho. Eu
labirinto – passeio despretensioso – com uma escrita que sabe olhar e em
respeito à mulher que não merece sofrer irei seguir, com cuidado. Me foi, me é,
difícil abandonar a rota e eu resisto. existo. e revolto. e volto. volto.
volto. Eu juro, é só chamar. Não! Encho os pulmões de ar sem fechar os olhos e
não enxergo mais a margem, está feito o caminho para a vertigem, esse
deslumbramento. Preparada para saltar nua e mergulhar em águas profundas não
sinto medo e se você sentir peço que se arrisque ou que vá ler em outro lugar
pois não tenho intenção de assustar ninguém que não mereça. Em instantes, num
descuido o tombo será dado e essas palavras estarão derramadas ao chão, é
provável que miseráveis, tal como a mãe primeira de Eros, e carentes em si
mesmas, em honra materna, irão de ficar e permanecer. Eis aqui o que me resta, Que haja amor! – estou
dizendo... E assim se fez texto, se fez palavra, se fez vírgula por sobre um
corpo a(o )mar que não cansou de existir.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
eu e a escrita
Se for possível, que essa
escrita deslize pelo ouvido e me faça cócegas. Hoje é preciso certa delicadeza...
Uma morte anunciada ronda o texto, mas me sento com ela e digo: vou escrever
sem doer. Então abro bem o buraco e espero ansiosa.
À mão da mãe pertencia a volta. O balanço quebrou, o irmão dormiu, a mesa está posta e é chegada a hora... Não quero! mas quero também. sim e não sei. Nada é sempre bom. Certo é aquilo que diz: não escreva... é que o certo nunca se deu para escrita, disso eu já sabia. Veja como leão é um bicho muito grande e tem só quatro letras! A bruxa caiu da cama e eu também, aproveito e invento uma história. “Era uma vez dois irmãos órfãos de pai e mãe...” começo uma lista: Bruno e Bruna. Paulo e Paula. Daniel e Daniela. Pedro e Pedra! O feminino virou coisa... O mundo era muito e não se escrevia. A mão virada para trás segura o lápis e caminha em frente. Braço torto, escrita torta. Do fio da linha à borda da folha. Para atravessar é preciso perder. A escrita é dessa nudez, do corpo que dança. Arrancaram minhas roupas e não tive escolha.
À mão da mãe pertencia a volta. O balanço quebrou, o irmão dormiu, a mesa está posta e é chegada a hora... Não quero! mas quero também. sim e não sei. Nada é sempre bom. Certo é aquilo que diz: não escreva... é que o certo nunca se deu para escrita, disso eu já sabia. Veja como leão é um bicho muito grande e tem só quatro letras! A bruxa caiu da cama e eu também, aproveito e invento uma história. “Era uma vez dois irmãos órfãos de pai e mãe...” começo uma lista: Bruno e Bruna. Paulo e Paula. Daniel e Daniela. Pedro e Pedra! O feminino virou coisa... O mundo era muito e não se escrevia. A mão virada para trás segura o lápis e caminha em frente. Braço torto, escrita torta. Do fio da linha à borda da folha. Para atravessar é preciso perder. A escrita é dessa nudez, do corpo que dança. Arrancaram minhas roupas e não tive escolha.
Então que seja assim, e que passe pelo corpo... é aqui o começo, onde a escrita atravessa. Se há um verbo que me rasga, eu costuro na falta o tecido da letra, ponto a ponto, linha a linha, furo a furo. necessidade lembrança ser sede corpo casa desejo só e tanto. Do medo de mar ao medo de amar há um silêncio a ser oferecido, não me esquivo.
Sou mulher de palavra,
quinta-feira, 7 de maio de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
da fome
A isso que me ocupa o estômago
e não sei de onde vem
chamarei ‘vontade de viver’.
da coisa minha dou o nome que eu quiser,
escolho um que saiba andar para frente.
Nem parte, nem toda...
algo assim que seja meu,
que seja eu,
que sê... já!
urgente e necessária
,
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Da insuficiência
palavra quase sempre havia
quase sempre a via
quase a ver...
haver-se em mim
palavra
sempre se havendo
falta
sempre
palavra
sexta-feira, 13 de março de 2015
Olivetti, 46
só escrevia manca
assim meio torta
meio capenga...
ia indo e o tempo insistia
tic tac tac tac tac tac
batia sempre a mesma tecla!
resolveu trocar o papel,
virou máquina de costura
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
convite
em silêncio eu diria:
quero transar com você
no tapete, nus
- saliva poros pele -
eu subiria pelo seu corpo
e chamava
te quero homem
eu quero...
(mas)
agora me desnudo de mulher e escrevo
descoberta
ainda é carnaval
fantasio
sozinha
faço o amor acontecer
Para ouvir: Cinema Americano - Thais Gulin
quero transar com você
no tapete, nus
- saliva poros pele -
eu subiria pelo seu corpo
e chamava
te quero homem
eu quero...
(mas)
agora me desnudo de mulher e escrevo
descoberta
ainda é carnaval
fantasio
sozinha
faço o amor acontecer
Para ouvir: Cinema Americano - Thais Gulin
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
medo de (a)mar II
um susto da memória reinventado em grão, imagem e canção
Meu(.) Teu. o mar de ninguém. e a diferença nossa.
"Eu vi as ondas brincando de pega-pega
Levar as águas do riacho cristalino
Eu vi menino vim brincar no mar
Oh mar vem lavar pé de menino
As gaivotas vão fazendo suas rondas
O sol levanta vento leste me incendeia
As gaivotas vão fazendo suas rondas
O sol levanta vento leste me incendeia
No chão da praia vou guardar a minha raia
E construir o seu castelo de areia
Menino vem brincar no mar
Oh mar vem lavar pé de menino..."
Para ouvir: O menino e o mar por Rubinho do Vale
E construir o seu castelo de areia
Menino vem brincar no mar
Oh mar vem lavar pé de menino..."
Para ouvir: O menino e o mar por Rubinho do Vale
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
medo de (a)mar I
a primeira vez foi azul... imenso e
inevitável. assim era o mar, em janeiro de 1994. assim era o mundo a partir
daquele instante. escancarado a me pertencer como parte, fragmento - nunca
toda. E eu ali, alguém à margem, alguém na espera, a quem o mar ia e vinha
independente da minha vontade. tinha 3 anos e medo. medo de não ter espaço para
me caber no tanto que era o mar. e o desejo inesgotável de existir para além da margem...
é janeiro de 2015 e sou eu. assim, na
esperança que não mais espera, mas confia e segue, mergulho com
gosto - de onda e lágrima. habito na minha presença o vazio entre céu e mar, o
horizonte impossível. aqui, na imensidão do entre - é um convite -, invento o encontro,
o conto, o canto.
Para ouvir e ver: Futuros amantes - ChicoBuarque
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Um trem e elas
O cheiro ardido do pequi atravessa a tarde, insistente. amarela o tempo que eu não vivi, mas que me acompanha percorrendo montes das montanhas de Minas. Há algo em mim que vem das mulheres do norte... Caminhos de um Sol que encouraça a pele. que marca quem já foi índia, negra, branca, quem já foi rio, céu, árvore e chão...
Contam-me sempre que eram loucas. pergunto o que é ser louca para uma mulher na década de 30... ou em 60, 80, século XXI. Sempre loucas, todas elas. todas nós. No que se cala ou no que se canta? Sempre elas. Nas calças, nas flores, nos vestidos, nos amores. Nas mães, nas mãos. Outras faces que me chegam assim, pelos trilhos da memória inventada de dentro.
Para ouvir - Beleza maior por Aline Luz
...
Não tenho lembranças minhas com Aline. Porém sei que nós tivemos um encontro numa noite de dezembro. Alguns amigos, vinhos, restos da ceia de Natal... e um vinil foi parar na vitrola, “é uma tia minha, gente!”
Ali Aline cantou conosco. E ficou...
compartilho essa minha escrita hoje, 25 de dezembro, quando Aline Mendonça Luz, minha tia avó, completaria 68 anos.
Para ver e ouvir: Coisa mais maior de grande (Gonzaguinha) por Aline Luz
Contam-me sempre que eram loucas. pergunto o que é ser louca para uma mulher na década de 30... ou em 60, 80, século XXI. Sempre loucas, todas elas. todas nós. No que se cala ou no que se canta? Sempre elas. Nas calças, nas flores, nos vestidos, nos amores. Nas mães, nas mãos. Outras faces que me chegam assim, pelos trilhos da memória inventada de dentro.
Para ouvir - Beleza maior por Aline Luz
...
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| Foto: Wilton Montenegro |
Não tenho lembranças minhas com Aline. Porém sei que nós tivemos um encontro numa noite de dezembro. Alguns amigos, vinhos, restos da ceia de Natal... e um vinil foi parar na vitrola, “é uma tia minha, gente!”
Ali Aline cantou conosco. E ficou...
compartilho essa minha escrita hoje, 25 de dezembro, quando Aline Mendonça Luz, minha tia avó, completaria 68 anos.
Para ver e ouvir: Coisa mais maior de grande (Gonzaguinha) por Aline Luz
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
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