sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Em mãos

do transe à transa
a palavra lambe
descansa a língua
acolhe o corpo

no ato que é
no ato de ser

desejo.

sábado, 18 de outubro de 2014

Do buraco V


quando a morte me olhou nos olhos, fui eu quem abri a porta

ela trazia trapos enrolados nos braços e não possuía cheiro

aqueles trapos, pensei, eram meus restos que ela carregava no colo feito um bebê

eu sorrio cúmplice e os recebo com gratidão

Em tempo...


domingo, 28 de setembro de 2014

Para ela, pelos nossos anos

(Do buraco IV)

Eu me convido a entrar. O corpo busca o papel para se deitar... A dor no corpo, o cansaço no corpo, o pesar no corpo, o próprio corpo... A( )pesar. A morte existe porque há um corpo. Finito, frágil, instável. A vida existe porque há um corpo. Finito, frágil, instável... É nesse lugar que eu sou, esse do corpo que sente. Que vive e morre, que se alegra e adoece, que grita e silencia. Neste instante estou exatamente por onde as coisas atravessam... Te vejo sentada, muito bem apoiada pela palavra que contraditoriamente não dizia. Qual o nome da dor que te carregava no colo? Que dor é essa que tenta se livrar do corpo? Ou... que dor é essa que ocupa um lugar inalcançável, fora do corpo e que precisa ser trazida, levada a ele como um caminho possível, suportável? As minhas perguntas se suspendem... Confesso: existe uma dor em mim também. A gente se toca às vezes... E agora enquanto escrevo posso vê-la agachada no canto, abraçando os joelhos e respirando em pulsos regulares... Minhas palavras são quase uma cantiga de ninar, elas compõem esse silêncio sem angústia para que a respiração sobressaia. Então é isso? - me surpreendo! Você me olha nos olhos e sinto que inverteu a lógica dos nascimentos, somos cúmplices. Quanto da sua voz eu trago nas mãos? Na volta à cidade, deixo a porta entreaberta caso você queira escapar mais um pouco.
Pelos caminhos, traço no silêncio a nossa cura. Eu, remédio. Eu, palavra.


sábado, 20 de setembro de 2014

(carto)grafias de mim


Que seja assim e que passe pelo corpo. É aqui o começo, onde a escrita atravessa. Parece não haver palavra no mundo incapaz de encontrar esse corpo à deriva e o enlaçar para o lado de cá. Haverá momento em que me perderei da escrita? Em que direi: Não quero. Não consigo.(?) Associo a escrita ao corpo como uma marca segura. Se nos perdermos é para cá que voltarei, onde não dá para deixar de estar. Perceba que é diferente de quando dizia de querer construir um corpo na linguagem, um corpo que existe na palavra... Essa é a entrega sincera de agora: ofereço meu corpo aberto para que a minha escrita se faça. Me autorizo. Me autorizo a errar. Me autorizo a tentar. A falar, repetir, reelaborar. Me autorizo a escrever sem doer. Que diga de uma dor, que cure ou não... Mas mesmo quando fardo inevitável, que me respeite. Me autorizo a sujar o texto de mim e amar cada fragmento, cada traço. Mesmo incompleta, mesmo em busca. Respeitar as ausências. Querer-se mesmo assim. Me responsabilizo nas minhas pequenas alegrias. É preciso estar para ser. O lugar é meu, não do outro. É preciso cuidar dele... O corpo é meu, não do outro. Afirmar é difícil, ainda mais quando se encontra a transitoriedade das coisas... Mas a afirmação pode ser um estar e afirmo mais uma vez que não quero que doa. Essas palavras precisam sair assim, como quem conta, como quem canta... E atravessa confiante sem olhar para os lados. Atravesso eu para esse lugar. Desacelero. Sinto o chão. Confio no meu caminho. Meus vales, meus morros, meus abismos... Sim, sou eu. Nesse encontro, nesse abraço, nessa escrita...

Para ouvir: Tocando em frente (Almir Sater) - por Maria Bethânia

domingo, 14 de setembro de 2014

Sobre(vivendo) setembro II

Desenho: Danielle Souza




   LISTA: "Para dividir"


      - Crise de primavera talvez seja um nome poético para inferno astral.
      - Florescer dói.
      - Se plantar em casa cura...
        - Ouvir: Solitude – Mariana Aydar

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Sobre(vivendo) setembro I

LISTA "Porque isso não é sobre querer andar de mãos dadas com você pelas ruas de La Plata (mas poderia ser)":


- A escrita do lado de lá cá tem buracos.
- A palavra quer abandonar coisas...
- Procuro uma gata chamada Macabea para amar profundamente.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Titereiro


A busca do conforto vinda na mão que segura o lápis e faz a volta. A palavra quer curar o corpo no papel. A prisão do branco faz aceitar preenchimentos visíveis, palpáveis. Uma história tece a rede, sopra o sussurro da voz que acalenta e adormece em instante. A felicidade quer ser, mas há a marca do corpo que pesa, desmede. O mal-estar surpreende, atravessa o sono e desperta madrugadas tranquilas. O estômago dói existe. A cabeça dói existe. O útero dói existe. Cedo na tentativa voluntária de expelir a dor, encontro a recusa existente da garganta que se fecha. Os ralos – buracos que levam a não sei onde – permanecem intactos, ocos, numa espera infinita e noturna. Esse incômodo surge para ficar guardado, existindo. A mão segura firme o fio solto... Insone, a escrita compulsiva tenta se derramar mais rápido que a bile. Ilusão de controle. É ele – o corpo – que (falha, padece e) grita: agora escreve. Existe.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"Se as estrelas são tantas, só mesmo o amor"

Preciso te contar que eu não sei escrever... Existe uma presença insistente daquilo que não há e que quer ser visto. Tento enxergar com o pensamento, mas o pensamento não alcança esse vazio. Então a palavra tece sobre ele, inventa, fantasia. É onde eu faço ter onde há tanta falta. Na lacuna entre o dizer e o sentido, aí que estou, não na palavra. É quase uma mentira. Eu falo dessa verdade impura, como somos todos nós.

A minha escrita não consegue ensinar da maneira como você quer porque ela pergunta mais que responde... Mas é a minha marca mais presente de que tudo me escapa, ela é o resto. Talvez consiga um respiro, uma distração, um sorriso... Explicação mesmo eu não tenho, quer dizer, tenho. Mas não resolve. Saber a gente até que sabe, mas sente assim mesmo.

Amiga, te dou aqui um abraço, um sopro, as mãos... E digo que compartilho das suas perguntas de Macabéa (aquelas, que não tem resposta).

Assim vamos indo... Cúmplices com o mundo.

(Para Rúbia)

Do buraco III


falo

-fato-

faço

(des)
faço

(re)
faço

e continua lá...

domingo, 24 de agosto de 2014

Bolhas de sabão


Olhares que se cruzam. Um corpo que vira e segura o instante do olhar que atravessa... Qual o cheiro do tempo suspenso naquelas escadas? Cotidianos de silêncios cronometrados, moletom e pêra.

Uma conversa que insiste, incide, a boca que quer abrir e desvia... Os olhos em fuga caminham, dentro fora dentro. Antecedem as mãos que não aguentam inquietas e soltam letra que faz laço, lança escrita em céu aberto. Um risco. Azul. Letra que encontra buracos, lacunas e aproxima. Letra que fura lá no fundo, faz(emos) nós...

Estradas, esquinas, lugar-comum. Das tardes doces de sol, limão e compromissos esquecidos. Da falta oferecida em abrigo. Dos silêncios mais sinceros. Das mãos que nunca souberam mentir. Coisas que gosto em você... O amor no corpo, desejo compartilhado, pedinte, querendo ser. Algo de encanto, algo que derrama, entrega, algo de desmesura... Nunca tão assim, nunca tão mulher. Rio que quer, não quer, chegar ao mar. E o mar, essa espera...

A queda, o susto, o lapso. Palavras que engasgam e desaparecem antes que eu pensasse em fechar os olhos. A mão que vacila marcando as ausências mais presentes... Arrancadas, escancaradas, feito porta que não fecha e range... Fio que se embola, escapa, o nó que aperta o peito-garganta-olhos-boca-pulmão-coração e espreme os choros mais doídos.

Anos que preferem existir em primaveras.

Foi-se uma duas, três, quatro, cinco. E agora era outra vez.

Com o gosto do sono na boca, abraços em trânsito, espaço deslocado ao chão. Cortinas não abraçam mais as janelas, o tempo tem dessas ressignificâncias...

Sua existência me atropela, abro passagem:

da linha mais próxima, à(s) próxima(s) linha(s)...

Carretéis.